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Quem Somos – Crítica Econômica

A Crítica Econômica é um site dedicado à publicação de conteúdos voltados à crítica da economia política, corrente de pensamento consolidada historicamente a partir das obras econômicas de Karl Marx e de seus desdobramentos teóricos posteriores. Entendemos a crítica da economia política como a investigação e análise das dinâmicas do modo de produção capitalista, tomando como pressuposto sua historicidade, isto é, o fato de que surgiu em determinado momento e que igualmente acabará um dia, voltando-se também ao estudo das possibilidades e dos meios de sua superação.

Publicamos tanto traduções de textos quanto produções originais de caráter diverso. Entre elas, incluem-se textos didáticos voltados à apresentação de discussões e conceitos, facilitando o acesso de estudantes iniciantes aos diversos temas; ensaios teóricos mais gerais, dedicados ao desenvolvimento e à crítica de categorias; assim como artigos voltados à análise de conjuntura e à ordem do dia.

A Crítica Econômica é um espaço de debate. Isso significa que somos abertos a contribuições oriundas de diferentes posições teóricas e políticas, sem exigir adesão a uma linha específica. Textos críticos, divergentes e mesmo de posições opostas e hostis às nossas são bem-vindos, desde que apresentados de forma ética, argumentativa e respeitosa. A crítica teórica não é, para nós, um problema, mas justamente um dos motores do desenvolvimento intelectual. Um exemplo claro disso é a crítica do economista liberal e um dos pais da Escola Austríaca, Eugen von Böhm-Bawerk, que, a partir de sua crítica à teoria do valor de Marx, permitiu uma sofisticação do entendimento do movimento socialista em relação a ela.

A nossa tribuna inclui mecanismos de réplica e de resposta. Os autores devem estar cientes de que suas contribuições estão sujeitas à crítica pública, a respostas e a refutações, entendidas como parte indissociável do debate intelectual e do desenvolvimento teórico.

A necessidade da existência de um espaço como a Crítica Econômica só pode ser plenamente compreendida ao mergulhar na história de nosso objeto, com especial ênfase nos deslizes e tropeços dessa trajetória.

Como chegamos até aqui?

Em 14 de março de 1883, Marx dá seu último suspiro. Pouco antes das 15h, na tranquilidade de sua poltrona, ele nos deixou. Infortunadamente, a morte de Marx também interrompeu a elaboração de sua obra principal, O Capital. Sua elaboração nesse campo data de 1844, quando Friedrich Engels publica o Esboço à Crítica da Economia Política. Este esboço, que levaria a uma virada no pensamento de Marx — e que este chamava de “esboço genial” — iniciaria a colaboração intelectual dos dois pensadores e inauguraria a caminhada de Marx na Crítica da Economia Política, que se encerraria 39 anos depois, com a sua morte. Infelizmente, Marx escreveria apenas o primeiro dos quatro volumes de O Capital, deixando o segundo e o terceiro volumes inacabados, sem chegar a escrever nada do último. Por isso, o mesmo Engels que desencadearia o início da elaboração da obra de Marx teria de ser também aquele que encerraria esse trabalho a partir dos manuscritos deixados pelo Velho Mouro.

A difusão das ideias de Marx seria, a princípio, obra da Internacional Socialista (mais tarde conhecida como Segunda Internacional), em particular da social-democracia alemã. Entretanto, essa popularização viria com um custo: a vulgarização de suas ideias. Por um lado, a complexidade da obra de Marx dificultava que sua difusão fosse feita sem simplificações, o que fez com que seu pensamento econômico fosse inicialmente propagado por meio de manuais, sobretudo os de Karl Kautsky, considerado a maior autoridade do marxismo na época. Por outro, a interpretação de O Capital então existente era ainda muito débil e limitada, sobretudo pela indisponibilidade de manuscritos como A Ideologia Alemã, os Manuscritos de Paris e, principalmente, os Grundrisse, textos que mais tarde se tornariam fundamentais para a compreensão do pensamento de Marx e que, à época, ainda não haviam sido publicados. Para piorar, o marxismo da Segunda Internacional sofria de profundo ecletismo, misturando o pensamento de Marx com positivismo, darwinismo, lassalleanismo e kantianismo, diluindo-o em outras vertentes e levando à cristalização de um marxismo determinista.

Apesar de todas essas dificuldades e problemas, uma geração notável de estudiosos de O Capital floresceu no interior da Segunda Internacional. Muitos dos principais teóricos da primeira geração de marxistas tomavam O Capital como livro de cabeceira. Mesmo que muitos não fossem necessariamente especialistas na obra, isto é, não tomassem seu estudo como centro de suas atividades, eles a estudavam atentamente e a tomavam como base de suas elaborações e como guia de sua ação. Figuras como Lenin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Rudolf Hilferding, Isaak Rubin, Bukharin e Preobrazhensky demonstram que houve avanços importantes na crítica da economia política nesse período. Ainda que muitos (uns mais que outros) reproduzissem os vícios de sua época, era notável uma clara evolução nos estudos da obra de Marx. Quase um século depois, ainda é difícil encontrar estudiosos da Crítica da Economia Política de envergadura comparável à de Preobrazhensky e Rubin.

Todavia, justamente no momento em que, no seio dessa tradição, brotavam seus melhores e mais notáveis frutos, seu elo de continuidade foi brutal e abruptamente rompido. Por um lado, a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha destruiu um dos maiores centros intelectuais do marxismo e aquele que fora o maior movimento operário do mundo. Partidos foram dissolvidos, bibliotecas destruídas e pensadores silenciados, exilados ou mortos. O país que outrora fora o maior centro difusor do marxismo tornava-se seu mais brutal opositor. Por outro lado, na URSS, berço da primeira revolução proletária bem-sucedida da história, a ruptura assumiria uma forma distinta, mas não menos destrutiva. A partir dos Grandes Expurgos, grande parte dessa geração seria exterminada. Foi no auge da primavera teórica do marxismo que se abateu o mais terrível dos invernos. Aquela geração, que pode ser considerada a mais genial e fecunda da história dessa tradição, foi enterrada, e sobre sua lápide ergueu-se a mais terrível vulgarização que o marxismo já conheceu. De ferramenta de intervenção na realidade, o marxismo tornou-se ideologia de Estado, submetida às necessidades do poder político. A criatividade, o rigor e a pluralidade foram substituídos pelo dogmatismo, pelo mecanicismo e pelo monolitismo. Em poucos anos, destruiu-se um patrimônio acumulado ao longo de décadas. Assim se deu o melancólico e trágico fim dessa geração. A morte deles representou, de certa forma, a morte da Crítica da Economia Política. Uma tradição se faz por pessoas, e não por livros. Livros abandonados, largados às traças e aos ratos, tornam-se letra morta, e nada mais.

A soma de dois eventos, entre as décadas de 1930 e 1940, gerou um deslocamento dos estudos econômicos de Marx. Por um lado, a eliminação física dos economistas mais criativos do marxismo nos Grandes Expurgos, somada à cristalização de um marxismo soviético como doutrina oficial, que abandonou o estudo de temas centrais de Marx, como valor, fetichismo e crise, em favor de esquemas simplificados e estéreis. Por outro lado, a crise de 1929 levou à ascensão do keynesianismo e da economia heterodoxa. Nesse contexto, em 1942, Joan Robinson, economista pós-keynesiana, publicou Ensaio sobre a Economia Marxista, obra que desempenhou papel central na legitimação dos estudos de Marx no interior da academia, processo posteriormente aprofundado por pensadores como Sweezy, Sraffa e Mandel. Assim, o principal polo de produção teórica do pensamento econômico de Marx deixou de ser o movimento socialista e passou a ser a academia. Marx foi, desse modo, castrado de seu caráter revolucionário: passou a ser tratado não como um teórico da crítica da economia política, mas como um economista heterodoxo. Embora existam semelhanças entre essas abordagens, as diferenças são inconciliáveis. Ambos se assemelham a médicos que diagnosticam uma doença, mas enquanto o economista heterodoxo entende que o capitalismo é o paciente a ser curado, o crítico da economia política compreende que o próprio capitalismo é a doença a ser eliminada. O pensamento de Marx passou, assim, a ser lido não como uma crítica revolucionária, mas como um sistema econômico positivo. Essa leitura, de Marx como autor da economia política, e não de sua crítica, empobreceu profundamente sua interpretação.

Esse cenário, contudo, não permaneceu incontestado. Em 1968, Roman Rosdolsky publicou Gênese e Estrutura de O Capital, obra que provocou uma verdadeira revolução no estudo de Marx. Rosdolsky foi um sobrevivente da genial geração de marxistas do primeiro terço do século XX. Entre as décadas de 1940 e 1950, ele descobriu e estudou os Grundrisse, manuscritos nos quais Marx realizou sua primeira tentativa abrangente de síntese de seus estudos de economia política. Foi Rosdolsky quem percebeu o caráter decisivo desse texto para a compreensão da obra de Marx, e foi a partir de seu trabalho que os Grundrisse passaram a ser amplamente estudados. Ele não era economista nem filósofo, tampouco tinha O Capital como centro de suas elaborações, embora o tivesse estudado profundamente, como todo bom teórico marxista daquele período. Mesmo não sendo sua área, sentiu que precisaria dedicar décadas de sua vida ao estudo desse manuscrito, pois julgava que nenhum outro marxista de sua geração seria capaz de fazê-lo. Rosdolsky faleceu tragicamente um ano antes da publicação de sua obra, mas seu esforço não foi em vão. Gênese e Estrutura de O Capital inaugurou uma renascença nos estudos marxianos, formando novas gerações de pensadores que resgataram a crítica da economia política em seu devido rigor. Autores como Hans-Georg Backhaus, Helmut Reichelt, Michael Heinrich, Christopher J. Arthur, Patrick Murray e Fred Moseley trouxeram contribuições decisivas para a compreensão da obra de Marx.

Por fim, algumas palavras sobre o presente, em que a história ainda está por ser escrita e os desafios permanecem em aberto. Apesar dos avanços alcançados pelos pensadores mencionados, muitos ainda carregam vícios acadêmicos. São, sem dúvida, superiores à geração de marxistas pós-keynesianos que precedeu a ruptura de Rosdolsky, na medida em que reconhecem que a crítica da economia política é essencialmente distinta da ciência econômica burguesa. No entanto, grande parte desses autores, dedicados exclusivamente à produção acadêmica, parece projetar essa condição no próprio Marx, secundarizando ou minimizando a dimensão revolucionária de sua obra. Além disso, ao menos no Brasil, raramente se percebe a influência dessas elaborações nas lutas cotidianas. Com ilustres exceções, a qualidade teórica de grande parte do movimento marxista é frequentemente elementar, panfletária e abstrata. A teoria marxista transforma-se mais em elemento de identidade política do que em ferramenta viva de compreensão e intervenção na realidade. Soma-se a isso um problema recorrente na intelectualidade brasileira: frequentemente reivindicam-se as categorias da crítica da economia política em nível abstrato, mas, nas análises empíricas, o que predomina é, no melhor dos casos, uma união eclética entre Marx e a macroeconomia keynesiana.

Este breve(ou longo, a depender da paciência do leitor) mergulho na história da crítica da economia política não foi despropositado, tampouco teve finalidade meramente informativa. Ele constitui a fundamentação e a justificação necessárias de nossos objetivos, que serão anunciados na próxima seção.

Nossos Objetivos

1) Construir uma geração capaz de utilizar a crítica da economia política como fonte viva de conhecimentos e da prática que se guia por ela.

Queremos construir uma leva de intelectuais críticos, capazes não apenas de dominar profundamente as categorias e os debates clássicos da crítica da economia política, mas também de mobilizá-los como instrumentos de análise e intervenção na realidade concreta. Para cumprir tal objetivo, a Crítica Econômica buscará introduzir no Brasil o que há de mais relevante e avançado na bibliografia e nos debates ao redor do mundo, não para realizar uma mera reprodução do que é produzido no exterior, mas para que esses aportes sejam apropriados criticamente.

2) Desenvolver teoricamente a propria critica da economia politica para além da pura exegese da obra de Marx.

Parte significativa dos estudos dedicados à crítica da economia política tem se limitado à interpretação e ao comentário da obra de Marx. Se insistimos que esse trabalho é fundamental, atentamos igualmente à sua insuficiência. Nosso objeto de estudo deve ser sempre a realidade. O valor de Marx está justamente em tê-la compreendido. Por isso, pretendemos voltar nossas lentes centralmente às dinâmicas reais do capitalismo, buscando compreendê-las para além do próprio Marx. Para isso, faremos a crítica antropofágica dos avanços da ciência econômica burguesa. Somente assim poderemos contribuir para o combate à estagnação que abate nossa escola de pensamento.

3) Diferenciar a crítica da economia política da economia heterodoxa.

No debate econômico público, o casamento entre essas duas escolas tornou-se corriqueiro. Os heterodoxos leem Marx e o cortejam em seus objetivos. Quanto ao campo marxista, ainda que reivindique as categorias da crítica da economia política no plano abstrato, estas magicamente desaparecem nas análises empíricas. Não nos colocamos contra o uso de qualquer autor ou escola por parte de ninguém, mas é fundamental reconhecer que as duas tradições têm métodos e objetivos distintos. Tampouco atacamos os marxistas que utilizam a heterodoxia como ferramenta de análise, já que, com ilustres exceções, existem poucos desenvolvimentos nesse campo no que diz respeito a um instrumental próprio de análise empírica.

Diante disso, a Crítica Econômica voltará também seus esforços para superar essa deficiência e permitir a devida diferenciação. Nesse processo, não rejeitaremos dogmaticamente os diversos avanços da heterodoxia, mas substituiremos a apropriação eclética pela apropriação antropofágica.

Conclusão

A queda da União Soviética e a derrota das experiências do século XX geraram um enorme recuo histórico no movimento socialista internacional. Este se expressou não apenas em um enfraquecimento político e organizacional, mas também em um vasto processo de abandono e desmoralização teórica. O horizonte de luta dos movimentos populares rebaixou-se, e as próximas gerações passaram a atuar dentro dos limites da ordem capitalista.

Entretanto, essa mesma desarticulação nos proporciona uma oportunidade histórica valiosa. Com a dissolução e a desorganização do movimento socialista, não temos mais as mesmas amarras e limites que as tradições teóricas naturalmente impõem. Temos agora a possibilidade e a necessidade de rearticular e reorganizar nosso campo a partir de um balanço das experiências anteriores, extraindo seus erros e lições. A partir desse processo, podemos reconstruir nosso campo sobre novas bases, erguidas a partir da demolição das velhas e do questionamento dos antigos dogmas. Dessa forma, podemos construir uma nova geração, mais capaz de lidar com os velhos e novos desafios do que as anteriores.

É com base nessa necessidade que a Crítica Econômica é criada. Nosso projeto surge da compreensão de que a reconstrução do movimento socialista tem, necessariamente, a crítica da economia política como um de seus aspectos centrais. Existimos para cumprir o aspecto econômico dessa tarefa, construindo quadros e avançando no desenvolvimento da teoria revolucionária.

 

Este post tem 4 comentários

  1. Krtz

    Achei foda e concordo com tudo que está escrito

  2. Júlio

    eu sou o primeiro liberal a pisar aq

  3. Júlio

    tu é foda man

  4. bolaesquerdadobenicio

    Pabens

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